Avaliação formativa: o que é e como aplicá-la na educação infantil e fundamental
Quando comecei minha trajetória na educação, eu via a avaliação quase como uma prova final, um momento de “ver quem aprendeu”. Com o tempo — e muita prática — percebi que avaliar vai muito além de dar notas. Avaliar é acompanhar o desenvolvimento, valorizar processos e ajudar cada criança a avançar no seu ritmo.
Foi aí que conheci a avaliação formativa — e minha prática pedagógica nunca mais foi a mesma. Hoje, esse tipo de avaliação é essencial na educação infantil e nos anos iniciais, porque respeita as singularidades de cada aluno e coloca o desenvolvimento no centro do processo educativo.
Neste artigo, vou compartilhar com você tudo o que aprendi sobre avaliação formativa: o que é, como aplicá-la na prática e como ela se conecta à BNCC.
O que é avaliação formativa?
A avaliação formativa é um processo contínuo, diagnóstico e reflexivo, que busca compreender como o aluno aprende ao longo de sua trajetória, permitindo que o professor intervenha e ajuste suas práticas para potencializar o desenvolvimento.
“Avaliar é acompanhar, é intervir com intencionalidade pedagógica, é garantir oportunidades reais de aprendizagem.” — Magda Soares
Diferente da avaliação somativa (aquela feita ao final de um período, geralmente com notas ou conceitos), a avaliação formativa acontece no dia a dia, durante as interações, brincadeiras, atividades e produções dos alunos.
Avaliação formativa e BNCC: uma conexão necessária
A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) não dita modelos de avaliação, mas incentiva práticas avaliativas que considerem os processos e não apenas os produtos.
Ela traz como objetivo central o desenvolvimento integral dos estudantes — cognitivo, social, emocional, cultural e físico. Para isso, precisamos de instrumentos de avaliação que observem o percurso do aluno, e não só seus resultados finais.
“O erro não deve ser visto como fracasso, mas como parte do processo de aprender.” — Vygotsky
Na BNCC, especialmente na Educação Infantil, a avaliação não tem caráter classificatório, mas descritivo e reflexivo, servindo para orientar intervenções pedagógicas.
Na Educação Infantil: observar é a chave
Na Educação Infantil, a avaliação formativa está diretamente ligada à observação atenta e intencional. Eu costumo manter um caderno de registros (ou fichas individuais) onde anoto:
- Como cada criança participa das atividades;
- Quais habilidades estão se desenvolvendo (coordenação, linguagem, socialização…);
- Quais avanços ou dificuldades aparecem no cotidiano;
- Interações com colegas e professores;
- Interesse, curiosidade e autonomia.
Importante: Não se trata de “julgar” a criança, mas de compreender seu processo de desenvolvimento para criar estratégias mais adequadas.
No Ensino Fundamental: dar voz ao aluno
Na etapa do Ensino Fundamental, além da observação, gosto muito de envolver os alunos na própria avaliação. Eles já têm condições de:
- Fazer autoavaliações;
- Participar de rodas de conversa sobre o que aprenderam;
- Refletir sobre suas produções;
- Identificar o que ainda precisam melhorar.
Essa participação ativa os ajuda a assumir um papel mais protagonista, alinhado à perspectiva da BNCC.
“Quando o aluno se reconhece como sujeito do seu processo, ele aprende com mais autonomia.” — Paulo Freire
Ferramentas práticas para avaliação formativa
Ao longo dos anos, desenvolvi algumas estratégias que facilitam muito a aplicação da avaliação formativa no dia a dia:
Registros sistemáticos
Mantenho fichas, tabelas ou diários de bordo com observações frequentes sobre:
- Participação
- Comunicação oral e escrita
- Desenvolvimento de habilidades específicas
- Atitudes e interações sociais
Esses registros ajudam a enxergar a evolução real do aluno ao longo do tempo.
Portfólios individuais
O portfólio é uma das ferramentas mais potentes que já usei. Nele, guardo:
- Desenhos, textos e atividades significativas dos alunos;
- Anotações de observação;
- Fotos de momentos de aprendizagem;
- Autoavaliações (nos anos iniciais).
Ele mostra não apenas “o que foi feito”, mas como cada aluno evoluiu — e é uma ótima ferramenta para conversas com as famílias.
Roda de conversa e devolutivas
Reservo momentos na rotina para conversar com os alunos sobre suas conquistas e desafios. Isso cria um ambiente de confiança e mostra que a avaliação não é um julgamento, mas um apoio ao crescimento.
Exemplo:
“Hoje percebi que você conseguiu ler sozinho o cartaz. Lembra que antes precisava de ajuda? Isso mostra que você avançou bastante!”
Autoavaliações e coavaliações
Mesmo nas turmas menores, é possível adaptar linguagens para que as crianças expressem como se sentem em relação ao que aprenderam. Nos anos iniciais, uso carinhas ou cores para indicar se compreenderam bem ou ainda têm dúvidas.
Nos anos mais avançados, eles escrevem ou falam sobre:
- O que aprenderam;
- O que foi mais difícil;
- O que ainda querem melhorar.
Avaliação por meio de projetos
Quando desenvolvo projetos interdisciplinares (por exemplo, sobre meio ambiente ou cultura local), avalio:
- A participação e colaboração em grupo;
- A pesquisa e produção de conteúdo;
- A criatividade e protagonismo;
- A apresentação final.
O mais interessante é que a avaliação acontece naturalmente, durante o processo — e não só no “produto final”.
Como transformar a avaliação formativa em aliada
No início, pode parecer desafiador organizar todos esses registros, mas algumas atitudes tornam tudo mais leve:
- Planejar com intencionalidade — saiba o que quer observar;
- Registrar de forma simples e objetiva — sem burocratizar demais;
- Compartilhar com os alunos e famílias — isso dá sentido ao processo;
- Fazer disso um hábito diário — pequenas observações constroem grandes avanços.
Avaliação formativa não é…
Muitas vezes, confunde-se avaliação formativa com outras práticas. Vamos esclarecer:
- Não é “deixar de avaliar” ou “avaliar com menos rigor”.
- Não é apenas observação informal sem critérios.
- Não é dispensar relatórios ou registros.
- Não é “elogiar tudo” sem olhar criticamente para o processo.
É olhar para o desenvolvimento de forma cuidadosa, garantindo que cada aluno tenha oportunidades reais de aprender.
Conectando avaliação formativa à aprendizagem significativa
A avaliação formativa está diretamente ligada à aprendizagem significativa (Ausubel, 1968). Isso significa que os novos conhecimentos se constroem sobre os saberes prévios e experiências reais dos alunos.
Quando avaliamos ao longo do processo, conseguimos:
- Identificar lacunas;
- Reorganizar estratégias;
- Personalizar intervenções;
- Estimular a autonomia dos estudantes.
“Se eu não puder avaliar para melhorar, então a avaliação perde seu sentido.” — David Ausubel
Exemplos práticos de aplicação
Para deixar mais claro, veja dois exemplos que uso no cotidiano:
Educação Infantil — Projeto “Brincadeiras do Mundo”
Habilidade da BNCC: Explorar diferentes movimentos, gestos e brincadeiras.
- Observo como as crianças interagem durante as brincadeiras.
- Registro as habilidades motoras e sociais que emergem.
- Faço registros fotográficos e escritos.
- Produzo relatórios descritivos.
- Compartilho com as famílias as conquistas de cada criança.
Ensino Fundamental — Projeto “Minha Cidade”
Habilidades da BNCC: Desenvolver comunicação oral e escrita, compreender identidade e território.
- Avalio a pesquisa e produção de textos;
- Observo a interação entre os colegas;
- Faço rodas de conversa sobre os aprendizados;
- Recolho autoavaliações dos alunos.
O resultado? Um processo rico, colaborativo e muito mais significativo do que uma simples prova final.
Vantagens reais da avaliação formativa
- Permite acompanhar o desenvolvimento individual.
- Valoriza o processo e não apenas o resultado.
- Gera feedbacks mais ricos e personalizados.
- Torna a avaliação mais humana, leve e construtiva.
- Dá voz ao aluno e fortalece sua autonomia.
- Ajuda o professor a planejar melhor suas intervenções pedagógicas.
Conclusão Avaliar é cuidar, acompanhar e acreditar no potencial de cada aluno
A avaliação formativa me ensinou que avaliar não é classificar, é compreender. Quando olhamos para o aluno como sujeito em desenvolvimento, e não como número, a escola se transforma em um espaço mais acolhedor, justo e eficiente.
Ela nos convida a ouvir, observar, registrar, intervir e replanejar — e isso torna o aprendizado mais verdadeiro.
“Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando.” — Paulo Freire

0 Comentários