Alfabetização e Letramento: Diferenças e Práticas para o Professor em Sala de Aula

Alfabetização e Letramento: Diferenças e Práticas para o Professor em Sala de Aula


Falar sobre alfabetização e letramento é mergulhar em um dos temas mais essenciais da Educação Básica. Como professora, sei o quanto essas duas palavras aparecem em nossos planejamentos, formações e discussões pedagógicas. Mas também sei que, muitas vezes, elas são usadas como sinônimos, o que gera confusão na prática.

Afinal, alfabetizar é o mesmo que letrar?
Como aplicar os dois processos de forma integrada e eficaz na sala de aula?

Neste artigo, quero compartilhar com você minha visão e experiência sobre o tema, unindo teoria, prática e reflexões inspiradas em autores como Magda Soares, Paulo Freire e Emília Ferreiro.
Além disso, trago estratégias concretas para o professor aplicar na rotina escolar, alinhadas à BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

O Que É Alfabetização?

Quando falamos em alfabetização, estamos nos referindo ao processo de aprendizagem do sistema de escrita — ou seja, à compreensão da relação entre letras e sons.
É nessa fase que o aluno aprende a decodificar e codificar a língua, identificando que as letras representam sons e que juntas formam palavras com significado.

Segundo Emília Ferreiro, uma das maiores pesquisadoras sobre o tema:

“A criança não é um recipiente vazio que precisa ser preenchido com letras, mas um sujeito que constrói hipóteses sobre a escrita e o funcionamento da língua.”

Em outras palavras, alfabetizar é ensinar a ler e escrever com base na compreensão do sistema alfabético e ortográfico — e não apenas na memorização mecânica de sílabas.
Por isso, é essencial que o professor observe as hipóteses de escrita de cada criança (pré-silábica, silábica, silábico-alfabética e alfabética) para planejar intervenções adequadas.

E o Que É Letramento?

O letramento, por sua vez, vai além da alfabetização.
Ele diz respeito à utilização social da leitura e da escrita — ou seja, à capacidade de usar o conhecimento da língua em diferentes contextos e situações reais de comunicação.

Segundo Magda Soares (2003):

“Letramento é o estado ou condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita e de suas práticas sociais.”

 

Isso significa que uma pessoa pode ser alfabetizada (saber ler e escrever palavras), mas não ser letrada (não compreender o uso prático e social da leitura e da escrita).
Por exemplo: um aluno pode decifrar o que está escrito em um bilhete, mas se não entender o sentido da mensagem, não estará letrado.

Portanto, letrar é dar sentido à leitura e à escrita, é formar leitores e produtores de texto capazes de se expressar, argumentar e compreender o mundo através da linguagem.

Alfabetização e Letramento: Duas Faces do Mesmo Processo

Durante muito tempo, a escola tratou alfabetização e letramento como etapas separadas — primeiro se alfabetizava, depois se letrava.
Mas hoje sabemos que essas duas dimensões precisam caminhar juntas desde o início.

Enquanto a alfabetização garante o domínio do código escrito, o letramento assegura o uso social e significativo desse código.
Um aluno que aprende a juntar sílabas, mas não entende o que lê, não está realmente alfabetizado.
Da mesma forma, não é possível letrar alguém que ainda não compreende o funcionamento da escrita.

“Alfabetizar letrando é ensinar a ler e escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita.”
Magda Soares

 

Em outras palavras, o desafio do professor é ensinar o código e o sentido ao mesmo tempo, tornando o aprendizado da leitura e da escrita vivo, funcional e prazeroso.

O Que Diz a BNCC Sobre Alfabetização e Letramento

A BNCC (2017) reafirma essa integração entre alfabetização e letramento.
Segundo o documento, o processo de alfabetização deve ocorrer até o 2º ano do Ensino Fundamental, mas as práticas de letramento devem estar presentes desde a Educação Infantil.

“A alfabetização deve ser entendida como um processo que se dá no contexto das práticas sociais de leitura e escrita, tendo o letramento como perspectiva integradora.”
BNCC, p. 88

 

Assim, a BNCC propõe que a criança aprenda a ler e escrever em situações reais, como ler uma receita, escrever uma lista, interpretar uma história ou produzir um bilhete.
Isso valoriza a funcionalidade da escrita e respeita os diferentes ritmos e hipóteses de aprendizagem.

Práticas Pedagógicas Para Integrar Alfabetização e Letramento

Agora que compreendemos a diferença entre os dois conceitos, quero compartilhar algumas estratégias práticas que aplico em sala de aula e que ajudam a unir alfabetização e letramento de forma eficaz.

Trabalhar com Gêneros Textuais Diversificados

Uma das formas mais ricas de promover o letramento é explorar diferentes gêneros textuais — bilhetes, receitas, poesias, listas, propagandas, convites, notícias, entre outros.
Ao trabalhar com textos reais, a criança percebe a função social da escrita e entende que ler e escrever servem para se comunicar com o mundo.

Exemplo prático:
Durante um projeto sobre alimentação saudável, pedi às crianças que trouxessem receitas de casa.
Lemos juntas, discutimos os ingredientes, escrevemos novas receitas e criamos um livro coletivo.
Enquanto se divertiam, elas praticavam leitura, escrita, ortografia e produção textual — alfabetizando-se e letrando-se ao mesmo tempo.

Ambiente Alfabetizador e Significativo

O espaço da sala de aula deve ser rico em estímulos visuais e linguísticos: murais com palavras, cartazes, listas, alfabeto móvel, cantinhos de leitura e escrita.
Esses elementos ajudam a criança a fazer conexões entre o que vê, fala e escreve.

Dica prática:
Crie um cantinho da escrita, com papéis, carimbos, revistas e envelopes.
Deixe que as crianças escrevam espontaneamente cartas, bilhetes ou listas de compras.
Assim, elas aprendem brincando e experimentando a escrita em contextos reais.

Leitura Diária e Diversificada

Ler todos os dias é essencial — não apenas textos escolares, mas histórias, poemas, músicas, placas, embalagens, notícias.
A leitura precisa ser prazerosa e significativa, estimulando a imaginação e o vocabulário.

Estratégia:
Promovo diariamente o “Momento da Leitura”, em que leio para os alunos e depois conversamos sobre o texto: o que entenderam, o que sentiram, o que aprenderam.
Esse diálogo desperta a consciência linguística e a interpretação de mundo, pilares do letramento.

Produção de Textos com Propósito

Desde cedo, as crianças podem produzir textos com sentido, mesmo que ainda não dominem totalmente a escrita.
O importante é dar significado à produção.

Exemplo:
Ao final de um projeto, sugeri que os alunos escrevessem uma carta para outro grupo contando o que aprenderam.
Eles se empolgaram, planejaram, desenharam e escreveram — cada um dentro do seu nível.
A troca de cartas foi um sucesso e fortaleceu a autoconfiança e o gosto pela escrita.

Jogos e Atividades Lúdicas

Os jogos de alfabetização são excelentes para consolidar a aprendizagem do código de forma divertida e interativa.
Podemos usar jogos de memória com sílabas, bingo de palavras, caça-letras e dominó de rimas.

Exemplo:
Criei o jogo “Caça à Palavra”, em que os alunos precisam encontrar, em revistas, palavras com determinadas letras ou sons.
Além de reforçar a correspondência fonema-grafema, a atividade desperta o interesse e a curiosidade pela escrita.

Projetos Integrados e Interdisciplinares

Projetos que envolvem leitura, escrita, arte e ciências são ideais para trabalhar alfabetização e letramento de forma natural e prazerosa.
O aprendizado deixa de ser fragmentado e passa a fazer sentido.

Exemplo:
Durante o projeto “Nosso Jardim”, os alunos leram textos sobre plantas, criaram etiquetas para os vasos, escreveram diários de observação e montaram um mural informativo.
Tudo isso desenvolvendo competências linguísticas, cognitivas e sociais.

Avaliação na Alfabetização e Letramento

Avaliar o processo de alfabetização e letramento não se resume a aplicar provas.
É preciso observar o percurso da criança, suas hipóteses, avanços e desafios.
Por isso, utilizo registros de observação, portfólios e autoavaliações, que me permitem acompanhar o progresso individual.

“Ensinar exige respeito à autonomia e à dignidade de cada sujeito.”
Paulo Freire

 

A avaliação deve ser formativa, contínua e reflexiva, considerando não apenas o domínio do código, mas também a compreensão, a comunicação e o prazer de ler e escrever.

Desafios e Possibilidades do Professor

Ser alfabetizador é uma das tarefas mais nobres e complexas da docência.
Envolve paciência, sensibilidade e criatividade.
Cada aluno tem seu tempo, seu jeito e sua forma de aprender.
Nosso papel é criar condições para que a aprendizagem aconteça de maneira significativa.

Com as metodologias certas e um olhar atento, conseguimos fazer da alfabetização e do letramento um processo encantador e transformador — para o aluno e também para nós, professores.

Alfabetizar Letrando é Ensinar Para a Vida

Hoje, compreendo que alfabetizar letrando é muito mais do que ensinar letras e sons.
É ensinar a ler o mundo, a se expressar, a pensar criticamente e a construir sentidos.

Quando as crianças percebem que a leitura e a escrita têm valor real — para comunicar, brincar, descobrir e transformar —, elas se apaixonam por aprender.
E é nesse momento que a educação cumpre sua missão mais bonita: formar cidadãos autônomos, conscientes e participativos.

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.”
Paulo Freire

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